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Autor: Manuel Ramalho Data de Publicação: 03Jul2007 09:10:00 Comentários: 0 Ler na origem: http://www.goddess.pt/
Um surfista que desafia a morte
![]() Um surfista com medo do mar. As ondas mais perigosas do mundo. Paredes de água de até sete metros de altura. Manter-se em pé dentro delas é o maior desafio para um surfista. Em uma praia no Taiti, o brasileiro Neco Padaratz viveu seus melhores - e seus piores - momentos. "Eu não tinha limite. Achava que o limite era o dia em que eu encontrasse o fim da vida", conta o surfista. Neco encontrou o limite no ano de 2000. Faltavam apenas 30 segundos para o fim da prova e ele tentou uma manobra arriscada. "Quando eu voltei dessa manobra, estava em cima das pedras, já no seco", lembra. Na Praia de Teahupoo, as ondas arrebentam sobre um banco de corais.
Neco conta como ficou preso entre as pedras: "A maré me levava para trás, com os braços esticados. Ou seja, eu não tinha mobilidade nenhuma para chegar aos meus pés. E a onda me levava em direção à pedra e me colava nela". "Pensei em pegar um pouco mais de ar e tentar saber o que estava acontecendo com os meus pés.
Mas a segunda onda não me deixou subir. A terceira onda também não. Foi quando eu entrei em pânico", diz Neco. O ar estava muito perto, mas Neco já não conseguia alcançá-lo.
"As coisas já estavam se apagando da minha mente debaixo d'água", diz ele. Foram 15 minutos de terror até a chegada do resgate. Neco voltou logo a surfar e aos campeonatos, mas evitou o Taiti por dois anos.
Em 2003, decidiu ir, mas desistiu no dia do embarque. "Eu me encontrei abraçado ao meu medo e falei que a única oportunidade de eu vencer isso tudo era trabalhar o meu lado psicológico", conta o surfista.Neco entrou em uma crise depressiva. Deixou de fazer o que antes dava prazer. Era um surfista com medo do mar. "Eu entrava no mar com meio metro de onda e, cada vez que eu ia para debaixo d'água, me sentia como uma criança que está aprendendo a nadar, apavorada na piscina. Eu precisava de ar, precisava respirar", conta ele. ![]() Junto com o medo vieram outros sintomas da depressão. "Eu não conseguia dormir, era uma insônia muito grande. Tinha visões durante a noite, mesmo semi-acordado. Não podia olhar para o quarto escuro que eu me sentia embaixo d'água", descreve Neco. Ele foi medicado e fez terapia - o tratamento em que o paciente é levado a entender seus problemas
por um especialista. No ano passado, voltou ao Taiti. A vitória, mesmo, veio este ano: uma nota dez desafiando a mesma onda que quase o matou."Quando eu saí do outro lado da onda, gritei muito, tanto quanto eu não consegui gritar naquele dia por causa do desespero. Mas desta vez foi por glória, por felicidade", comemora Neco. Perto do mar, do sol, com uma vida de aventuras - distante do que as pessoas associam à depressão.
Neco aprendeu com a doença. "Ela existe, assim como o medo, como a felicidade, como o amor. Eu acho que ela é apenas uma das palavras fortes que temos na nossa cabeceira. Cada dia que acordamos podemos nos defrontar com ela", conclui Neco. Jovens em crise O medo e a ignorância ajudam a camuflar a doença nas casas e escritórios das
grandes e pequenas cidades. Milhões de horas perdidas no trabalho. Um sofrimento impossível de medir. Muita gente não procura ajuda, ou não conhece a doença, ou teme ser discriminado. Uma investigação está sendo feita para saber o tamanho do problema. Os pesquisadores vão bater na porta de 5 mil moradores da Grande São Paulo para descobrir quem são,
quantos são e o que fazem os brasileiros que sofrem com a depressão. O que a estudante Eunice Okuyama enfrentou acontece com muitos adolescentes.
Ela achava que a tristeza e o desânimo eram coisas da idade. "Escrevia muitas letras do grupo Legião Urbana, me sentia muito sozinha. Ninguém compreende. Parece que isso vai durar para o resto da sua vida, você não tem visão de um futuro bom", conta Eunice. Eram os primeiros sinais da depressão. Quando a doença se agravou, começou a atrapalhar os estudos.
Foram três anos seguidos. O vestibular se aproximava e ela abandonava o cursinho. "Eu não conseguia estudar porque não tinha concentração, tudo para mim era muito difícil. Eu achava que aprendia as coisas com mais facilidade antes", diz a estudante. Mal acordava, e Eunice já se sentia cansada. "De manhã era a pior hora, saber que o dia ia começar de novo.
Eu queria que o mundo explodisse. Sabia que aquilo não ia acontecer, mas esse era meu maior desejo." A depressão já foi mapeada em dois bairros de classe média de São Paulo.
A maior surpresa foi o grande número de casos entre os jovens, na fase do vestibular e da entrada no mercado de trabalho. "Existe uma cobrança muito grande, uma expectativa de que o jovem seja aquilo que a gente quer.
Os pais precisam olhar mais as necessidades do jovem, e não projetar desejos próprios no desempenho dele, porque ele se sente acuado, se sente impotente", diz a psiquiatra Laura de Andrade. Eunice conta que ninguém em casa conhecia a depressão. Ela foi sozinha procurar ajuda.
"Eu cresci ouvindo que psicólogo e psiquiatra eram coisas de louco. Só quebrei esse preconceito depois que comecei a fazer tratamento", conta ela. Eunice finalmente conseguiu encarar o vestibular e começar a faculdade de artes.
"Hoje, viver para mim é sensacional. Tudo me dá prazer. Como estou no início do tratamento, não posso dizer que é isso e pronto. Às vezes, tenho umas decaídas. Mas hoje eu consigo enxergar isso como uma doença", desabafa. ![]() Medo incontrolável
A depressão pode aparecer em diferentes fases da vida e acentuar fobias - um medo exagerado das
coisas mais comuns, como andar de carro ou usar o elevador. A Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) pesquisa um tratamento virtual. Um computador simula situações reais para que o paciente, pouco a pouco, enfrente o medo e ganhe segurança.Fábio Arnoni conseguiu vencer o medo de dirigir, um dos sintomas da doença que tornou a vida do ex-engenheiro mecânico um inferno. "Quando eu dirigia, sentia falta de ar, uma secura muito forte na boca e uma sensação de estrangulamento. Era uma coisa que, por mais que eu explicasse a todos, ninguém entendia. As pessoas diziam que eu estava fazendo corpo mole, que era frescura, que eu não estava a fim de trabalhar. Tanto que acabei perdendo o emprego", conta ele. Para controlar a doença, Fábio mudou de vida e de cidade. Trocou Vitória por São Paulo.
Hoje é professor e massagista. Foi 80 vezes ao pronto-socorro e não descobriu o que tinha. "Eu passei por cardiologista, clínico geral, ortopedista, tudo o que se possa imaginar. Fiz todos os exames que existiam na época, mas nenhum médico conseguiu apresentar um diagnóstico." "A depressão, ou a Síndrome do Pânico, não era tratada como uma doença, as pessoas olhavam meio de lado.
E para o homem era ainda pior, porque acabava sendo taxado de vagabundo. Era muito difícil", ressalta Tânia, mulher de Fábio. O medo incontrolável deixou Fábio trancado em casa. O casamento quase acabou.
"Ele falava que não ia trabalhar porque não estava se sentindo bem.
Eu achava que era uma desculpa para não ir trabalhar. Entramos em muitos conflitos", lembra Tânia. O diagnóstico certo, Fábio só encontrou em um centro especializado em São Paulo.
Aos poucos, foi dominando o medo. O equilíbrio, mesmo, ele ganhou com a nova profissão. "Eu sou milhões de vezes mais feliz que antes. E o principal: a doença é minha companheira,
mas eu sei lidar com ela hoje. Sei quando ela está chegando porque a sensação é muito clara. Então, eu faço técnicas de respiração, relaxo, tento me desligar, tento dissociar aquilo que está acontecendo, para não ter que voltar a tomar medicação de novo", diz Fábio. Sofrendo em segredo. O mecânico aposentado Jesus Mello teve duas vidas. Uma delas ficou nas fotos. "Sempre fui uma pessoa alegre. Conforme os sobrinhos e as filhas iam nascendo, eu brincava e tirava sarro, como se diz na gíria", lembra. A outra vida, ele guardou em segredo. "Eu não era muito de brincar com os outros garotos", conta. Desde cedo, a sensação era de abandono. Jesus tinha 8 anos quando a mãe morreu.
"Eu sonhava, com os olhos abertos, que estava sendo acariciado pela minha mãe, coisas assim", diz ele. Emoções muito fortes, já na infância, podem ser o começo de uma depressão.
Jesus não via como doença, era uma imensa tristeza, que ele se acostumou a ter sempre por perto. "Eu me considero uma pessoa alegre. Mas quando era mais novo, tinha crises de choro.
Para chorar, não pago imposto. Então, não escolho hora nem lugar, é só dar aquele aperto eu já começo, até dentro do ônibus", diz. O choro constante, difícil de controlar, comum em quem tem depressão, acompanhou Jesus no casamento e quando as filhas nasceram, mas ninguém sabia. "Eu sempre vi meus pais rindo, brincando com a gente. Minhas amigas até tinham inveja porque os pais
delas não eram assim", conta Ana Lúcia, filha de Jesus. Um casal festeiro, que gostava de bailes. A bebida foi anestesia para os momentos tristes.
Nem Jesus, nem a família perceberam que os sintomas da depressão estavam crescendo silenciosamente. "Eu chorava escondido, na cama. Muitas coisas que eu estou contando agora são novidade para minhas filhas", revela Jesus. "Eu não me recordo de ver ou ouvir meu pai chorando. Fiquei sabendo agora", diz Ana Lúcia.
"Depois de velho é que eu vim saber que isso poderia ser uma doença. Não sabia nem que o nome era depressão",
conta Jesus. O mal que ele passou a vida toda tentando vencer sozinho se agravou depois da aposentadoria. "Eu acho que é uma doença muito séria. Como ele não se abria, foi guardando tudo e isso foi fazendo mal.
Acabou sofrendo um infarto", comenta Adriana, filha de Jesus. Nos piores dias, falta ânimo. Ele fica horas sem se mexer, parece mergulhado em outra dimensão.
"Ele fica olhando para nada. Digo para ele levantar a cabeça e reagir", conta Vilma, esposa de Jesus.
Reconhecer a doença, dividir com a família e procurar tratamento.
Passo a passo, Jesus vai se reencontrando com aquele que ficou nas fotos. |
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