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Autor: JudsOnline         Data de Publicação: 08Fev2010 16:16:00         Comentários: 0        Ler na origem: http://judsonline.blogtok.com/
1/3 dos haitianos querem as tropas brasileiras fora do país

Lembro que no início de 2009, estive reunido na Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro com Didier Dominique, professor e sindicalista haitiano do movimento Batalha Operária (Batay Ouvrye). Já na época Didier comentava que uma parte dos haitianos da capital Porto Príncipe não estava contente com a ocupação da MINUSTAH, liderada pelas tropas brasileiras. Aqui no Brasil, Didier Dominique, é tido como ídolo dos partidos de esquerda. PCO, PSOL e PSTU (confira entrevista) acolhem as ideologias do sindicalista haitiano, e ainda fazem corro na mobilização da saída das tropas brasileiras do Haiti.

Didier Dominique é um dos principais ativistas contra a presença de tropas lideradas pelo Brasil no Haiti. (JudsOnline.com)"Fora já/Fora já daqui/Fora Bush do Iraque/e Lula do Haiti." Criado ainda na era pré-Obama, o grito de guerra que embala os protestos de partidos de esquerda brasileiros continua valendo após o terremoto que atingiu o Haiti em meados de Janeiro de 2010. Por meio de sites e lideranças, legendas de base socialista como PSOL, PSTU e PCO mantiveram a campanha pela saída das tropas brasileiras do Haiti. Entre as críticas, estão acusar o governo brasileiro de "imperialismo", de fazer uma "ocupação colonial" e de repetir os "crimes" praticados pelos Estados Unidos no Iraque. A defesa do governo brasileiro de estender a presença das tropas e de aumentar o contingente de homens é classificada como "precipitada". Sempre achei também que a ONU poderia designar outros países, com menos problemas sociais, como o Brasil para acudir o Haiti. Mas, todos nós sabemos que o principal interesse do Brasil com respeito a ONU é conquistar uma cadeira definitiva em sua cúpula de segurança.

Enquanto, os partidos falam no tema "imperialismo", que a ocupação brasileira está a serviço da ONU, e consequentemente das multinacionais americanas, parto para o simples ponto: Tantas mazelas no nosso país, nas esquinas das ruas das nossas capitais o deplorável, a barbaridade diante dos nossos olhos, com crianças e pessoas famintas, sem oportunidade, sem dignidade, restando-lhes apenas o crack, as nossas favelas igualmente violentas as do Haiti e com pessoas vivendo em situação de insalubridade e o Brasil ainda vai ajudar Haiti? Isso é insano. Não pode e nunca deveria ter acontecido. A bondade deve ser exercida, mas devemos saber dos nossos limites. Se nossa casa está caindo aos pedaços, suja e sem ordem, não podemos de forma alguma ajudar o vizinho, pois temos que primeiramente resolver os nossos problemas. No meu artigo publicado no jornal O Globo, semana passada, um dos comentários dos leitores foi o seguinte:

"(...) Bonzinho é o Lula & quadrilha, e os músicos brasileiros que andam fazendo show em prol do Haiti. Ontem houve um show no Circo Voador no Rio, com a ong Viva Rio recolhendo donativos. Detalhe: na praça em frente a sede do Viva Rio você encontra diariamente muitos menores abandonados e mendigos fumando crack. E neguinho querendo ajudar o Haiti. Vc percebe a hipocrisia ?"

Sem comentários.

Mobilização anti-Brasil ecoa no Haiti após terremoto

Folha de São Paulo31/01/2010

Acuada e radicalizada, uma franja da sociedade haitiana aproveita o caos pós-terremoto para aumentar o volume de uma demanda que completa seis anos: brasileiros, voltem para casa! São na maioria simpatizantes do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, deposto em 2004 por uma ação norte-americana (para a qual a ONU fez vistas grossas) e hoje exilado na África do Sul. Vivem em bairros miseráveis de Porto Príncipe, como Cité Soleil e Bel Air, onde Aristide aparece em grafites nos muros ao lado de Bob Marley e Martin Luther King. "Aristide construiu tudo por aqui, e os brasileiros destruíram", disse um homem que se identificou apenas como Jean, tomando cerveja e fumando maconha às 10h numa rua em ruínas em Bel Air. A seu lado, outro que se apresentou como "Matador" disse que os brasileiros não têm o que fazer no país. "Eles nunca construíram nem um banheiro aqui", queixou-se.

Muitas pessoas na região nutrem ressentimento pelas operações de "pacificação" conduzidas pelos militares do Brasil entre 2004 e 2007, que desarmaram gangues pró-Aristide após duros combates. "Eles [os soldados brasileiros] não são nossos amigos. Eles matam nosso povo", diz Vanel Louis Paul, dirigente do Massa Popular, uma agremiação de base pró-Aristide que tem sede na gigantesca favela de Cité Soleil, a maior de Porto Príncipe. Emile Wilnes, integrante do mesmo grupo e membro do conselho da Fundação Aristide, ONG assistencialista mantida por aliados do ex-presidente, diz que hoje o Brasil é um dos responsáveis por dificultar o retorno de seu líder do exílio. "Nós achávamos que [Luiz Inácio Lula da Silva] fosse um democrata. Mas hoje, vendo o que aconteceu aqui, não achamos mais", declara ele.

Ao longo de dez dias em Porto Príncipe, a Folha percebeu bem mais demonstrações de apreço aos brasileiros entre a população do que o contrário. O Brasil lidera militarmente a Minustah, a força de paz da ONU, que em geral é bem aceita pelos haitianos. Mas a franja radicalizada existe e é atuante, não apenas nas favelas, mas também no movimento estudantil. O pior cenário para o Brasil seria o de uma aliança entre as massas empobrecidas das favelas e essa elite politizada. "Não deixamos de acompanhar atentamente e com preocupação a atuação dos partidários de Aristide, mesmo com a situação de fraqueza deles", diz o coronel Alan Santos, chefe da comunicação social do batalhão brasileiro da Minustah.

Carlos Barria /Reuters

MINUSTAH em crise no Haiti. (JudsOnline.com)

Haitianos transitam por campo de desabrigados instalado em frente ao palácio presidencial de Porto Príncipe

Marcha anual

Todos os anos, em 28 de fevereiro (aniversário da queda de Aristide), pelo menos 5.000 pessoas marcham pelas ruas de Porto Príncipe para lembrar o que qualificam como um golpe de Estado. Pichações pedindo a saída da Minustah são poucas, mas visíveis em alguns muros do centro da capital. Nunca houve violência nessas manifestações, pelo próprio fato de que as gangues ligadas ao ex-presidente foram desarmadas, e seus líderes, presos. Mas cerca de 5.500 ex-integrantes desses grupos paramilitares escaparam da prisão no terremoto e estão à solta.

Aristide quer voltar ao Haiti e promete nunca mais concorrer à Presidência. Não há no Haiti pesquisas sobre a popularidade de seu partido, a Família Lavalas, mas é certo que continua forte nos principais bolsões de pobreza do país. "Estamos no país todo. O nosso é o partido da maioria", disse à Folha a presidente do partido e principal representante de Aristide no Haiti, Maryse Narcisse. Ex-ministra no governo do presidente deposto, Narcisse é mais diplomática ao falar dos brasileiros. Pede claramente, no entanto, um cronograma para a saída das tropas estrangeiras, algo que a ONU já disse que só acontecerá daqui a "muitos anos".

"Não podemos achar que a Minustah vai ficar aqui para sempre. Está na hora de sabermos quando seu trabalho vai terminar", diz ela. "Precisamos de solidariedade internacional, mas tem que haver dignidade para nós."

Divisão

A resposta dada pela Minustah, Brasil à frente, ao terremoto serviu para aumentar o golfo entre os que defendem e os que se opõem à presença estrangeira no Haiti. Aplausos e polegares levantados em sinal de positivo costumam saudar brasileiros em operações de distribuição de alimentos. Mas quem é contra não se convence.

"A Minustah não tem sido capaz de responder de maneira adequada ao terremoto. Minha impressão é que as tropas não sabem bem o que fazer", diz Narcisse.

 
 

Judson Clayton Maciel - SociólogoJudson Clayton Maciel – Sociólogo.

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